Entre memórias de infância e experiência autoral, um ensaio sobre o apagamento da vida urbana amazônica na literatura brasileira.

Sempre que me perguntam sobre quando me tornei leitora, rapidamente viajo no tempo e volto para a casa onde nasci e passei a primeira infância. Antes de ler livros, me apaixonei pela literatura escutando contos de fadas na vitrolinha vermelha da Turma da Mônica que ganhei de presente dos meus pais no meu aniversário de cinco anos. Passava horas escutando e reescutando aquelas personagens que logo se tornaram minhas amigas imaginárias. Pouco tempo depois, ganhei os primeiros livros, na verdade eram pequenas coleções de contos de fadas que uma tia querida costumava me presentear. Lembro do encantamento diante de cada história; era impossível não me identificar, sobretudo com Alice, em sua imensa vontade de descobrir o mundo, sua curiosidade insaciável, seu desejo de aprender e sua imaginação desmedida.

Depois vieram outras coleções, e então mergulhei nos contos de Grimm, que me revelaram um outro lado das narrativas: um território mais complexo e assustador, completamente diferente do universo que os contos de fadas e os filmes da Disney me ofereciam. Na escola, encontrei os chamados paradidáticos. Encantei-me com a coleção Vagalume, com os livros de Ana Maria Machado, Marcos Rey, Pedro Bandeira, e tantos outros escritores que marcaram minha geração. Mais adiante, chegaram os clássicos, aqueles considerados “necessários” para o vestibular.

Mas, olhando em retrospecto, percebo que em nenhum momento as escolas onde estudei, nem mesmo os professores que me cercavam, se preocuparam em me apresentar uma literatura próxima da minha realidade local. Só fui ler Thiago de Mello e Milton Hatoum já no início da vida adulta.

Quando a própria terra vira estrangeira

Eu conhecia os mitos da minha Amazônia, mas eles não eram transmitidos com a mesma seriedade ou com o mesmo entusiasmo com que se recomendava a leitura de outras geografias. Cresci, assim, com uma sensação ambígua: como se a própria região em que nasci fosse um lugar exótico, distante até para mim. Esse distanciamento não era apenas simbólico; era também intelectual. Embora sempre tenha ouvido falar da importância da história econômica do Amazonas, sobretudo após a década de 1980, com a consolidação do Distrito Industrial e da Zona Franca, o território da literatura amazônica permanecia tratado como exceção.

Quando me tornei escritora e comecei a publicar meus primeiros livros, essa percepção se aprofundou. Percebi que, historicamente, outras regiões do país também leram (e ainda leem) o Norte sob o signo da exceção; quase sempre associado ao exotismo, à metáfora do selvagem, ao extraordinário. A imensa Amazônia: menos como experiência cotidiana e mais como paisagem mítica ou cenário alegórico.

Nos últimos anos, contudo, a literatura contemporânea tem tensionado esse olhar. Autores do Norte vêm deslocando a Amazônia do campo do extraordinário para o da experiência comum, cotidiana, urbana, contraditória. É possível sentir esse deslumbramento renovado. Não o deslumbramento do exotismo, mas o da complexidade humana, ao ler, por exemplo, Ayrton Souza em Outono de Carne Estranha ou Monique Malcher em Flor de Gume. Essas obras não recorrem ao estereótipo; ao contrário, revelam personagens atravessados por tensões urbanas, afetivas e políticas, mostrando uma Amazônia que não se reduz à floresta nem à metáfora.

É nesse horizonte que também se inscreve a minha própria escrita. No romance Terra Úmida, mergulhei na história da chegada dos judeus marroquinos à Amazônia, bem como de outros povos que migraram para o Norte em busca de prosperidade durante o ciclo da borracha. Senti a necessidade de olhar para trás para compreender o presente da minha região. E, para meu espanto, percebi que não apenas pessoas de fora de Manaus desconheciam essa história, mas que muitos amazonenses também não tiveram acesso a ela.

Já em meu livro mais recente, Sol Abrasador Prepara Solo Fértil, volto o olhar para Manaus e para outras cidades amazônicas ao longo de dezoito contos que percorrem uma linha cronológica iniciada no começo do século XX e estendida até a contemporaneidade. Neles, busco apresentar personagens e narrativas que escapem aos estereótipos, revelando existências atravessadas por transformações sociais, históricas e afetivas. A paisagem amazônica, naturalmente presente em sua exuberância incontornável, não surge como ornamento exótico nem como metáfora fácil; ela integra a vida cotidiana e molda modos de ser, de falar e de agir. Ou seja, constitui, enfim, a própria experiência humana de cada personagem.

Romper com a narrativa da exceção 

Ao me reconhecer nesse movimento, passei a escrever com uma preocupação clara: demonstrar, por meio da minha própria ficção, o quanto a vida urbana amazônica também exige ser narrada. Há um apagamento histórico dessas experiências, uma insistência em fixar o Norte sempre na chave do extraordinário. Escrever tornou-se, para mim, uma forma de deslocar esse olhar.

Não se trata de negar o mito ou a potência simbólica da região, mas de reconstruir as narrativas sem recorrer ao exotismo fácil. Trata-se de reivindicar o direito à complexidade. De afirmar que a Amazônia também é cotidiano, também é cidade, também é subjetividade contemporânea.

Se, na infância, eu buscava em Alice a coragem de atravessar o desconhecido, hoje compreendo que o verdadeiro gesto de descoberta talvez seja outro: fazer com que a Amazônia deixe de ser vista como o “outro” da literatura brasileira e passe a ser lida como parte constitutiva de sua experiência comum.

A escritora Myriam Scotti.

Myriam Scotti nasceu em 1981, em Manaus (AM). É escritora, crítica literária e mestre em Literatura pela PUC-SP. Seu romance “Terra Úmida” foi vencedor do Prêmio Literário de Manaus 2020. Em 2021, seu romance juvenil “Quem chamarei de lar?” (Pantograf) foi aprovado no PNLD literário e escolhido pelo edital Biblioteca de São Paulo. Em 2023, lançou o livro de poemas “Receita para explodir bolos” (Patuá). Foi finalista do prêmio Pena de Ouro 2021 na categoria Conto. Em 2024, ficou em segundo lugar na categoria conto do prêmio Off Flip. Myriam é autora de  “Sol abrasador prepara solo fértil“ (Orlando).

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Publicado por:Philos

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